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‘Achava que a culpa era minha’, diz estudante vítima de abuso por ex-companheiro

Leia relato na íntegra da estudante baiana Mariana Novaes*, 23 anos, sobre violência física e psicológica. O nome utilizado é fictício para preservar a identidade da vítima:

“Nunca achei que ele fosse o homem da minha vida. O homem com as qualidades que sempre acreditei que um cara deveria ter para que eu pudesse me apaixonar. Ainda hoje, passados quatro meses do final, em definitivo, do meu tormento, não compreendo o porquê e como as coisas chegaram tão longe.
Longe porque foram quatro anos de namoro. Eu nem sei se os dois últimos podem ser assim intitulados, mas isso não é o mais importante. Ele era gentil comigo. Divertido, agradável, amoroso e atencioso. E foi assim por dois anos, foram quase 800 dias de um namoro normal e aconchegante. Eu já gostava. Muito.
Eu não sei onde ele mudou e o porquê. A paz dos dois primeiros anos me fazia pensar que aquilo tinha jeito. Achava que a culpa era minha, que, de repente, passei a não dar a atenção que ele merecia. Pensei a considerar que ele podia ter razão quando dizia que os finais de semana tinham que ser só nossos, que eu não deveria dividir meu tempo com os meus amigos.
Logo os meus amigos, que sempre tiveram lugar de destaque na minha vida. As brigas vinham todos os dias, por qualquer motivo. Eu também pensei que os problemas familiares poderiam ser a justificativa para aquele comportamento que ele tinha. A cada desculpa que me pedia, imediatamente depois dos episódios de violência emocional, ele me fazia acredita que também era vítima.
Acordar se tornou um parto, todos os dias. Me assustava existir naquela aflição diária. Eu não podia mais atender meu celular com tranquilidade, sequer sentar ao lado de um homem no ônibus. Ele ligava, ele me acusava, ele me xingava de coisas que eu nunca pensei ouvir de um homem.  Ele me empurrou sobre a cama, violentamente.
Aquilo não era um “ciúme normal”, do qual sempre acreditei que os grandes amores eram passíveis. Era abuso. Abuso e machismo. Nem paixão, nem respeito, nem confiança e, muito menos, amor. 
O buraco foi ficando cada vez mais fundo. A ponto dele me seguir no trabalho e me surpreender, no meio do caminho, insistindo que eu tinha acabado de sair de um carro. Eu cogitava a existência de loucura naquela cabeça. São incontáveis os terrorismos que suportei até chegar ao que eu vou chamar de fundo do poço.
Primeiro eu senti vergonha. Na verdade, ainda sinto. É que foram três términos e duas voltas. Eu voltei a namorar, mesmo depois dele ter dito com todas as letras “Eu vou te matar” – quando tudo o que eu fiz foi dar ‘boa noite’ ao vizinho.
Demorei até perceber traços de abuso e violência do meu namoro. Ou percebia, mas não aceitava. Me sentia muito responsável por ele. Era como se o meu o dever fosse transformar aquele homem no cara que eu queria que ele fosse. 
Para mim, as pessoas eram injustas, porque ele era um cara sofrido em instâncias familiares. Além do mais, ele era gentil quando acordava de bom humor. Ele até fazia minhas vontades. Minha família também gostava dele e isso contava muito para mim.
Mas descobri que eu não tinha que carregar esse peso comigo. Juntei pedaços de discernimento para decidir. E consegui. Era engraçado à medida que acontecia, porque ia acontecendo sempre do mesmo jeito. Aquelas desculpas, aqueles choros dele, aquelas promessas. Eu cansei de ouvir. 
No nosso último dia, ele inventou que eu tinha que ir dormir com ele, mas eu não queria. Àquela altura, eu já me sentia violentada. Não fui. No dia seguinte, ele foi à porta da minha casa e gritou para a minha família todos aqueles xingamentos que, até então, apenas eu tinha conhecimento. Vergonha. Muita vergonha. Mas a melhor coisa da minha vida.
Talvez, se as violências não tivessem se tornado públicas, a gente estivesse junto até hoje, aos trancos e barrancos. Foi minha liberdade. Procurei a polícia. Denunciei tudo, aos prantos. Como quem pare um filho. Lidei com inúmeras ameaças depois disso. Promessas de que me mataria se me visse com alguém e faria da minha vida um inferno.
O medo esteve presente em todo este processo, mas, por sorte, família e amigos, o temor não venceu minha vontade de sair daquele ciclo. A gente entende que o amor tem muito mais a ver com os atos do que com as promessas. E que ninguém, absolutamente ninguém, tem qualquer direito sobre você, quem você é e o que você faz. 

Fonte: Correio da Bahia

Locais de referência – violência contra mulher:

ACESSE O LINK: http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/violencia-contra-a-mulher-saiba-onde-encontrar-ajuda/

Conteúdos do blog

As publicações deste blog trazem conteúdos institucionais do Projeto Força Feminina – Unidade da Rede Oblata Brasil, bem como reflexões autorais e também compartilhadas de terceiros sobre o tema prostituição, vulnerabilidade social, direitos humanos, saúde da mulher, gênero e raça, dentre outros assuntos relacionados. E, ainda que o Instituto das Irmãs Oblatas no Brasil não se identifique necessariamente com as opiniões e posicionamentos dos conteúdos de terceiros, valorizamos uma reflexão abrangente a partir de diferentes pontos de vista. A Instituição busca compreender a prostituição a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazendo à tona temas como o estigma e a violência contra as mulheres no âmbito prostitucional. Inspiradas pela Espiritualidade Cristã Libertadora, nos sentimos chamadas a habitar lugares e realidades emergentes de prostituição e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, onde se faz necessária a presença Oblata; e isso nos desafia a deslocar-nos em direção às fronteiras geográficas, existenciais e virtuais.   

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