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Vacina, Prioridades e Prostituição

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QUEM SÃO, ELAS, NA “FILA DO PÃO”?

A CHEGADA DA VACINA

Enfim, chegou a tão sonhada vacina. Seria na prática um momento de comemoração, euforia, de enxergar a esperança, a “luz no fim do túnel”. Mas, infelizmente esse sonho não era para todas/es. Ainda nos deparamos com uma logística negligente e ineficaz e um Governo com um esquema de aquisição de vacina precário e insatisfatório. Neste momento estamos sendo representados por governadores, prefeitos e por países ricos que acreditam que o Brasil é um país emergente.

Certo afirmar que o SARS-CoV-2 mudou o mundo, doenças de massa costumam ser complexa e essa veio trazer um maior desafio, devido ser algo desconhecido e de rápida transmissão. Os impactos negativos, devido ao vírus, tem sido cada vez observados na economia e na vida social das pessoas.  

Muitos profissionais, governos e empresas em todo mundo vêm buscando uma solução eficaz no combate ao coronavírus, que surpreende com um número de perdas lastimável, MAIS DE 500 MIL VIDAS PERDIDAS. Ele, modificou a relação de vivência no planeta. O desenvolvimento tecnológico em saúde precisou rapidamente se adequar às novas realidades com a descoberta em tempo recorde do imunizante. O mundo não será o mesmo e espera-se na ciência a resposta para amenizar essa dor. Mesmo havendo interesse econômico na produção dos imunizantes, hoje além de medidas de distanciamento social e modificação do comportamento humano, vacinas são a única esperança para que a vida possa voltar parcialmente a sua normalidade. Por isso, desejamos que a ciência vença essa batalha e que rapidamente possamos, com segurança, desfrutar do velho e bom contato com as pessoas que amamos, mas também que possamos olhar às problemáticas que relativizam o bem viver das minorias, ou seja, de mulheres, negros, índios, imigrantes, população LGBTQIA+…

Na prioridade ao acesso a imunização encontram-se profissionais de saúde e áreas afim, idosos, pessoas com comorbidades comprovadas, grávidas e puérperas, além de diversas categorias que à medida que reivindicam a urgência dos seus profissionais e/ou população acabam entrando na lista de prioridades. Nessa escala de prioridades, estão realmente profissionais que lidam diretamente com o vírus, mas percebe-se que não foram priorizadas as pessoas que não param, que precisam lidar com a pandemia como se nada tivesse acontecido; há pessoas nas ruas que precisam suprir suas necessidades e as dos seus familiares, e além disso contribuem diretamente com a economia; pessoas que não tem para onde ir e permanecem neste lugar que ainda é sinônimo de invisibilidade: a rua. Precisamos ratificar que a rua é o “lugar de acolhida”, lugar de cumplicidade e irmandade, lugar que sempre às receberam de braços abertos, neste lugar que acolhe também as profissionais do sexo. Elas, não pararam!

A imunização é uma ferramenta para proteger os mais vulneráveis contra doenças e a vacina da COVID para proteger a humanidade de algo que não nos faz caminhar, que está impactando o sistema imunológico, o sistema econômico, as relações sociais e favorece o aparecimento de pandemias, que aqui no Brasil, já estamos enfrentando a muitos anos: a pandemia da fome, a pandemia das desigualdades sociais, a pandemia do machismo, sexismo, homofobia e racismo; a pandemia das violências recorrentes contra as mulheres culminando o feminicídio. Por todos esses motivos, a vacinação se mostra, mais do que nunca, fundamental. A vacina assegura e salva vidas! Como relata:

A pandemia de Covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2 ou Novo Coronavírus, vem produzindo repercussões não apenas de ordem biomédica e epidemiológica em escala global, mas também repercussões e impactos sociais, econômicos, políticos, culturais e históricos sem precedentes na história recente das epidemias. A estimativa de infectados e mortos concorre diretamente com o impacto sobre os sistemas de saúde, com a exposição de populações e grupos vulneráveis, a sustentação econômica do sistema financeiro e da população, a saúde mental das pessoas em tempos de confinamento e temor pelo risco de adoecimento e morte, acesso a bens essenciais como alimentação, medicamentos, transporte, entre outros. (FIOCRUZ, 2021)

PANDEMIA E PROSTITUIÇÃO: INVISIBILIDADE DAS PROFISSIONAIS DO SEXO

O mês de junho é marcado pela comemoração, especificamente no dia 2, o Dia Internacional das Prostitutas, que tem o objetivo denunciar as desigualdades e os preconceitos sofridos pela categoria. Para entender como surgiu está data Monique Prada declara na Revista Trip:

“Apesar de historicamente forçadas à clandestinidade em nossos próprios países, temos nos organizado como movimento há algumas décadas. Desde 1975, o 2 de junho é tido como o Dia Internacional das Prostitutas, lembrando a ocupação da Igreja de Saint Nizier, em Lyon, por prostitutas que protestavam contra a intensa repressão policial que sofriam.” (REVISTA TRIP, 2017)

A data não há o que comemorar as mulheres que exercem a prostituição estão há muito tempo, através dos movimentos e coletivos reivindicando visibilidade e respeito dentro de uma sociedade ainda cercadas de sexismo e machismo em que os corpos de mulheres ainda são estigmatizados e consumidos pelo patriarcado.

Em meio a pandemia, oriunda do vírus COVID 19, as mulheres que exercem a prostituição viram a renda diminuir drasticamente, pois é uma atividade que requer aproximação e contato físico – o distanciamento físico é uma das medidas de combate a propagação do vírus. Por outro lado, não existem nenhuma estratégia pensada e/ou desenvolvida pelo Estado para salvaguardar essa categoria, saliento que fazem parte da CBO – Código Brasileiro de Ocupação – pagam impostos e movimentam a economia na sua região. Pensem agora em relação a vacina, nenhum direito de entrar no grupo prioritário lhe é assegurado, ou melhor, não foi citada a categoria para iniciar uma conversa, uma articulação, um diálogo. Infelizmente as profissionais do sexo continuam como “peça de decoração” nos centros das Cidades brasileiras.

Na luta por direitos a população brasileira está vivenciando duas crises: a de conseguir vacina e a da fome. Segundo dados do site Combate a Fome, cerca de 19 milhões de brasileiros passam fome. O cenário anterior a pandemia já havia apresentado índices alarmantes, porém com a crise sanitária esses números agravaram. Ainda no site podemos citar três pontos para o aumento da fome no Brasil, são eles: crescimento da extrema pobreza, destruição dos meios de subsistência e alta dos preços de alimentos básicos e a redução do auxílio emergencial.

A UNAS, uma de nossas organizações parceiras, relatou que pelo menos 68% das famílias perderam renda durante a pandemia. E o impacto sobre a segurança alimentar foi direto: 67% afirmaram que precisaram, pelo menos uma vez, diminuir a quantidade de alimentos em suas refeições diárias, além de 42% deixaram de fazer uma das três refeições diárias por falta de recursos financeiros. (ActionAid, 2020)

Trazendo o fato para a realidade das mulheres que são assistidas pela Rede Oblata o cenário não é diferente, escutamos diariamente relato de mulheres que não tem perspectiva de quando conseguirá abastecer a dispensa de alimentos para você e sua família, solicitação de cestas básicas e/ou algum alimento para suprir a necessidade imediata são recorrentes. Segundo as mulheres com a pandemia é cada vez mais difícil a oportunidades para realização de programas, alterando assim sua renda semanal. As mulheres que estão na “batalha” não pararam em nenhum momento, até viram uma melhora no início da pandemia com o auxílio emergencial, porém o cenário mudou de uma hora para outra e consequentemente alterou toda sua vida financeira. Relatos como: “Se eu não trabalhar não consigo pagar as contas, não consigo comer”, “Essa pandemia existe para quem? Eu preciso está aqui”, “Nunca parei de trabalhar, estou todos os dias na Praça”, “Com as filhas em casa o custo para a comida aumenta”.

Esmeralda¹ é uma mulher assistida pela Rede Oblata – Unidade Força Feminina em Salvador, desde os anos 90 e viu sua vida se transformar com início da crise sanitária. Ela sempre relatava que nos últimos anos a vida das prostitutas do Centro de Salvador não estava fácil, quase não encontrava programas diários e aqueles que realizava os valores não supria suas necessidades básicas. Esmeralda é arrimo de família sustenta as filhas, os netos e as netas com o dinheiro da prostituição e também do Bolsa Família. Há quem diga que o dinheiro dar para sustentar a si e a família. Imagine! Você viveria com menos de um salário mínimo? Ela, sustenta a casa toda, paga aluguel, utiliza do valor para transporte e ainda, para completar, tem problemas de saúde. Esmeralda é obesa e as dificuldades para encontrar programa ainda é mais difícil. Segundo ela a pandemia veio para acabar com a vida das mulheres que ficam na Praça², mesmo tendo consciência que estamos vivendo uma pandemia ela argumenta que precisa estar naquele local não por diversão, mas por necessidade. “Você acha que, se eu tivesse outra coisa para fazer, me protegendo desse vírus eu não faria? Claro que faria!!”.

As instituições, os movimentos sociais e os projetos que no início da pandemia ofertavam mensalmente cestas básicas e produtos de higiene pessoal e de limpeza viram as doações diminuírem e a maneira de minimizar os impactos negativos na vida dessas mulheres irem por “ralo abaixo”. Esse foi o caso do Projeto Força Feminina que busca incansavelmente articulações com órgãos e instituições que possam fortalecer a parceria e consequentemente ofertar alimentos para compor as cestas básicas. Saliento que não é apenas as cestas básicas que são necessárias neste momento, as mulheres precisam pagar aluguel, se vestir, suprir as necessidades das crianças e adolescentes, adquirir remédios. É digno para qualquer ser humano ter em mãos uma renda básica e poder se sentir valorizado. Elisiani Pansine afirma: “Não dá para deixar as trabalhadoras sexuais sozinhas, apenas contando com a ajuda da comunidade e das associações.”

Estamos vivendo um filme de terror em que acesso a direitos básicos nos são negados e os retrocessos parecem nunca mais parar. A sensação é que estamos “enxugando gelo” todos os dias, a sensação é de inutilidade, mesmo indo às ruas reivindicar por “Vacina no braço e comida no prato” o grito não está ecoando e permanecemos a pensar em estratégias para não sangrar até 2022, período no qual decidiremos os rumos da política brasileira e dos acessos aos direitos, na urna.

Alessandra Gomes Coordenadora Força Feminina

Comunicação Força Feminina- Rede Oblata

REFERÊNCIAS

Act!onaid. Acesso em 11 de maio de 2021.  https://combateafome.org.br/?utm_source=googlerg&utm_medium=search&utm_campaign=rgfome&gclid=CjwKCAjwtdeFBhBAEiwAKOIy5zlfpma2dNLKEl2oPsBoAgyO9xL1nYFsAk3Eqh3Uq_4MkQTEvDdORBoCw4UQAvD_BwE

FIOCRUZ. Acesso em 11 de maio de 2021. https://portal.fiocruz.br/impactos-sociais-economicos-culturais-e-politicos-da-pandemia

Pasini, E. (2020) Em depoimentos à antropóloga Elisiane Pasini, prostitutas falam sobre trabalho e vida em tempos de covid-19: “Nós existimos!”. Viomundo. https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/em-depoimentos-a-antropologa-elisiane-pasini-prostitutas-falam-sobre-o-trabalho-e-a-vida-em-tempos-de-covid-19-no-brasil-nos-existimos.html

Prada, M. (2017) O mais antigo dos preconceitos. https://revistatrip.uol.com.br/tpm/no-dia-internacional-das-prostitutas-e-puta-dei-monique-prada-escreve-sobre-a-luta-por-direitos-na-mais-antiga-das-profissoes

Souto, L. (2021) Sem beijo, de máscara: prostitutas criam regras para trabalhar na pandemia…https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/03/25/so-de-costas-trabalhadoras-sexuais-adotam-protocolo-para-poder-trabalhar.htm

PENA, J.S.; SILVA, F. P. A. Trabalho sexual e covid-19: Entre o risco e a sobrevivência (2021). https://revistas.unila.edu.br/espirales/article/view/2769

Conteúdos do blog

As publicações deste blog trazem conteúdos institucionais do Projeto Força Feminina – Unidade da Rede Oblata Brasil, bem como reflexões autorais e também compartilhadas de terceiros sobre o tema prostituição, vulnerabilidade social, direitos humanos, saúde da mulher, gênero e raça, dentre outros assuntos relacionados. E, ainda que o Instituto das Irmãs Oblatas no Brasil não se identifique necessariamente com as opiniões e posicionamentos dos conteúdos de terceiros, valorizamos uma reflexão abrangente a partir de diferentes pontos de vista. A Instituição busca compreender a prostituição a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazendo à tona temas como o estigma e a violência contra as mulheres no âmbito prostitucional. Inspiradas pela Espiritualidade Cristã Libertadora, nos sentimos chamadas a habitar lugares e realidades emergentes de prostituição e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, onde se faz necessária a presença Oblata; e isso nos desafia a deslocar-nos em direção às fronteiras geográficas, existenciais e virtuais.   

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