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Setembro Amarelo e outras contradições

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O contexto da Pandemia do COVID-19 e seus impactos para o adoecimento mental de mulheres que exercem a prostituição

Setembro Amarelo é um movimento de conscientização e prevenção do suicídio, estabelecido 10 de setembro como o dia mundial de prevenção ao suicídio, data esta que marca o trágico suicídio de Mike Emme nos Estados Unidos. Mike era um jovem de 17 anos que cometera suicídio no ano de 1994. A escolha da cor amarela seria uma homenagem ao rapaz, pela sua predileção a cor; vale ressaltar que infelizmente, as pessoas que faziam parte do círculo social de Mike (família, amigos, colegas e vizinhos), não perceberam os sinais de que o jovem pretendia cometer suicídio. A movimento tende a dá voz a um combate pela manutenção da vida sendo esta, fruto de uma mobilização e organização coletiva de movimentos sociais pela luta antimanicomial no Brasil. A campanha no Brasil foi criada e estimulada pelo Centro de Valorização da Vida – CVV em 2015. E neste contexto, visa maior proporção e engajamento à causa no mês de setembro (CVV, 2020).

A campanha é aderida no Brasil e no mundo com dados alarmantes, como revela a Organização Mundial de Saúde – OMS. Segundo o órgão, a estimativa é que 1 milhão de pessoas cometem suicídio no mundo anualmente – sendo a cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio. Ainda segundo a OMS (2014), o suicídio se configura como um problema de saúde pública, tendo em vista a condição de adoecimento psíquico, que grupos conhecidos como “minorizados”, são submetidos ao serem totalmente responsabilizados pela sua sobrevivência e de sua família na sociedade. Sobretudo as mulheres que exercem a prostituição, que em plena pandemia do COVID-19, foram  colocadas em um  lugar de vulnerabilidade extrema pelo Estado; isso devido à ausência de cobertura de saúde, de informação de segura, de um programa público sustentável nas comunidades e periferias além do Estado não garantir a inserção de muitas dessas mulheres nas políticas de assistência social. Elas enfrentam diariamente as consequências do programa neoliberal de Estado Mínimo em que seus direitos humanos universais são negados e negligenciados pelo poder público.

Segundo ainda os estudos divulgados pela OMS (2014), o suicídio acaba sendo mais letal que doenças e falecimento em decorrência de câncer e do vírus HIV. Ainda no mesmo estudo, para populações mais jovens, entre 15 a 24 anos, o suicídio se configura como a segunda causa de morte entre este público. Segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS (2018), 79% dos suicídios acontecem em países pobres e de baixa renda. O que traz a discussão do ethos liberal (espírito liberal), o que parte para a responsabilização dos indivíduos, não atribuindo a análise da manifestação de um fenômeno social, como um produto infame das relações e forma de organizar da vida em sociedade. A OMS (2014) ainda ressalta em sua pesquisa que a cada 10 suicídio, 9 podem ser prevenidos com tratamento e diálogo; o que se torna um ponto contraditório na pesquisa, haja vista trazer como ponderação, qual seria a importância real de manter esse corpo vivo (?). Refletir sobre o dever do Estado em ofertar para toda cidadã qualidade de vida, justiça social e o fim da exploração desses corpos. Para além da contradição de não garantir uma qualidade de vida para a população, o Estado Brasileiro possui em sua Constituição Federal a viabilização e cobertura dos direitos sociais em sua totalidade, o mesmo vem negligenciando a cobertura total do Sistema Único de Saúde- SUS para toda população.

Partindo da reflexão dos escrito do sociólogo e filósofo Karl Marx, em sua obra intitulada: “Sobre o Suicídio”, o autor escreveu os relatos da rotina de trabalho de um policial francês da época chamado de Jacque Peuchet – pelos recorrentes casos de suicídio na França, na segunda etapa da Revolução Industrial na Europa, no século XIX -, inserindo-se a partir de um olhar para as esferas sociais, nas discussões sobre o suicídio, onde o autor descreve em seus escritos, como uma mazela social nas questões referentes a classe e a propriedade. Marx salienta que o suicídio, em parte, foi o grande responsável pela morte de inúmeras mulheres, vítimas do patriarcado na Europa no Século XIX. Não muito distante da realidade de muitas mulheres na atualidade, como é colocado na última publicação da revista Oxfam (2020) – Tempo de Cuidar: O trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade”,  que a desigualdade econômica entre homens e mulheres, revela qual caminho é feito pelas mulheres para se ter acesso a renda e como o sistema capitalista encontra formas de restringir o acesso a riqueza. O sistema patriarcal tende a garantir o privilégio do homem branco, onde se é definido que o mesmo usufrua de maiores salários:

“A desigualdade econômica também se baseia na desigualdade de gênero e a maioria das pessoas situadas na base da pirâmide econômica são mulheres. A probabilidade de mulheres e meninas estarem em empregos mal remunerados e precários é maior e são elas que assumem a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado e mal pago. O modelo de capitalismo dominante explora e impulsiona ativamente crenças sexistas tradicionais que desempoderam mulheres e meninas, ainda que contando com elas para fazer esse trabalho, mas se recusando a valorizá-las por isso. (Oxfam Brasil, 2020)”

Segundo fontes do Censo Demográfico de 2010, cerca de 53% da população brasileira é formada por mulheres em idade ativa, porém, menos de 45% dos postos de trabalho são ocupados por mulheres. Ademais há grande quantidade de mulheres que desempenham em sua grande maioria, trabalhos autônomos; revelando assim um cenário perturbador da ordem do sistema econômico capitalista, que neste período de pandemia do COVID-19, encontra-se em profunda crise, o que resulta em um número significativo de pessoas com adoecimento mental. Vale ressaltar que, para as mulheres em situação de vulnerabilidade extrema, que atuam como profissionais do sexo, transparece o modo como essas mulheres são colocadas no mundo das contradições – crise econômica X trabalho formal/informal -, contradições estas que aprofundam a luta de uma classe dentro das demais classes sociais pela sobrevivência –além de deixar em evidência das questões de gênero e raça – , o que corrobora para a problemática do aumento do suicídio nas populações, sobretudo o adoecimento mental de mulheres, em sua maioria, principais responsáveis pelo sustento e cuidado de outros que dependem exclusivamente do cuidado delas (Oxfam, 2020).

Ângela Davis (2016) em seu livro: “Mulheres, raça e classe”, propõe um pensamento mais minucioso ao fazer críticas a teoria marxista. A definição de classe para Marx, está para um elemento universal de análise de todas as expressões da questão social, se tratando de uma direção para se pensar toda uma sociedade. Já Ângela Davis, correlaciona a classe como um dos fatores relevantes da sociedade, quando este (o fator classe) está a ser observado a partir de outros dois elementos que seriam: mulher (gênero) e raça. Partindo do princípio de que há uma interseccionalidade mútua entre esses três pilares.

Contudo, torna-se de grande relevância analisar as relações de gênero, raça e classe, partindo das desigualdades sócio-ocupacionais em que as mulheres que exercem a prostituição, são condicionadas pelo sistema capitalista, estando estas na base da pirâmide social e que carregam o estigma da prostituição. Ao pensar o “novo normal” pós-pandemia do COVID-19, fica como reflexão, se a pandemia será capaz de trazer mudanças reais e significativas para a transformação de vida em sociedade, em que todas/todos/todes, possam usufruir de políticas públicas emancipatórias, que possibilitem a justiça social e a preservação da saúde mental, sobretudo para as mulheres que encontram-se em situação de vulnerabilidade extrema e dependem exclusivamente da sua força de trabalho para garantir o sustento de sua família. Pensar na formulação de um novo horizonte com infinitas perspectivas e não um afunilamento das possibilidades. Trata-se de manter a vida pela saúde e VIDA!

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Reflexão escrita por Simone Alves, Assistente Social do Força Fermina – Rede Oblata em Salvador

REFERÊNCIAS

MARX, Karl. Sobre o suicídio. São Paulo: Boitempo, 2006.

 OXFAM Internacional, – Tempo de Cuidar: O trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade”, janeiro de 2020.- Reno Unido.

Site OMS: – https://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/world_report_2014/en/, acesso em 25 de setembro de 2020.

Site OPAS: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5671:folha-informativa-suicidio&Itemid=839, acesso em 25 de setembro de 2020.

DAVIS, Angela, 1944 – Mulheres raça e classe; tradução Heci Regina Candiani. – 1.ed. – São Paulo: Boitempo 2016.

Site: https://www.cvv.org.br/blog/setembro-amarelo-como-cada-um-de-nos-pode-ajudar-a-prevenir-o-suicidio/, acesso em 28 de setembro

Conteúdos do blog

As publicações deste blog trazem conteúdos institucionais do Projeto Força Feminina – Unidade da Rede Oblata Brasil, bem como reflexões autorais e também compartilhadas de terceiros sobre o tema prostituição, vulnerabilidade social, direitos humanos, saúde da mulher, gênero e raça, dentre outros assuntos relacionados. E, ainda que o Instituto das Irmãs Oblatas no Brasil não se identifique necessariamente com as opiniões e posicionamentos dos conteúdos de terceiros, valorizamos uma reflexão abrangente a partir de diferentes pontos de vista. A Instituição busca compreender a prostituição a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazendo à tona temas como o estigma e a violência contra as mulheres no âmbito prostitucional. Inspiradas pela Espiritualidade Cristã Libertadora, nos sentimos chamadas a habitar lugares e realidades emergentes de prostituição e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, onde se faz necessária a presença Oblata; e isso nos desafia a deslocar-nos em direção às fronteiras geográficas, existenciais e virtuais.   

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